Literatura

Literatura

TÉCNICA RESPONSÁVEL - Ana Freitas

PRESSUPOSTOS


A literatura, tal como as outras áreas expressivas, é indispensável para a formação cívica dos jovens. Pretende-se desenvolver e orientar a sensibilidade cultural da criança, promover a observação do meio envolvente, promover o gosto e a curiosidade pela cultura do seu país e por outras culturas, bem como promover a interacção das linguagens escrita e falada.

Ao expormos os sujeitos a instrumentos culturais somos capazes de criar condições que lhes possibilitem crescer a nível cultural. A Literatura pretende, assim, dar oportunidades às crianças e jovens abrangidos pelo projecto “A Cor dos Dias”. O objectivo principal é o de criar cidadãos que sejam capazes de questionar o mundo que os rodeia para que o possam transformar em algo MELHOR, através da formação de estruturas próprias de reflexão e de argumentação.

 

Através de situações de diálogo, de cooperação, de confronto de ideias, pretende-se fomentar nas crianças e jovens a curiosidade de aprender, de falar, de ler, de escrever, tornando o seu conhecimento abrangente e plural.

 

Competências gerais:

 

- Contribuir para o desenvolvimento da sensibilidade estética através da literatura;

- Promover situações de contacto com diferentes culturas artísticas de diferentes povos e em diferentes épocas, ampliando as referências culturais e estéticas e contribuindo para o desenvolvimento de uma consciência multicultural;

- Promover a valorização do património artístico e cultural nacional, regional e local de uma foram activa e interventiva;

- Promover o gosto pelo uso correcto e adequado da língua portuguesa;

- Mobilizar saberes culturais para compreender a realidade à sua volta;

- Adoptar metodologias personalizadas de expressão e comunicação;

- Comunicar, utilizando formas diversificadas, o conhecimento resultante da interpretação da informação;

- Desenvolver a consciência linguística, tendo em vista objectivos instrumentais e atitudinais;

- Desenvolver um conhecimento reflexivo, objectivo e sistematizado da estrutura e uso do Português.

 

Objectivos específicos:

 

- Alargar a compreensão de discursos em diferentes variedades do Português;

- Criar autonomia e hábitos de leitura, com vista à fluência de leitura;

- Apropriar-se de técnicas fundamentais da oralidade e da escrita, com vista a desenvoltura, naturalidade e correcção no seu uso multifuncional;

- Pesquisar, seleccionar e organizar informação para a transformar em conhecimento mobilizável;

- Realizar actividades de forma autónoma, responsável e criativa;

- Avaliar e controlar o desenvolvimento das tarefas que se propõe realizar;

- Auto-avaliar a correcção e a adequação dos desempenhos linguísticos, na perspectiva do seu aperfeiçoamento;

- Cooperar com os outros em tarefas e projectos comuns;

- Manifestar sentido de responsabilidade, de flexibilidade e respeito pelo seu trabalho e pelo dos outros;

- Estabelecer e respeitar regras para o uso colectivo de espaços.

 

Obras escolhidas

A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós

Os Lusíadas” de Luís de Camões


Razões para a escolha dessas obras

 

Hoje em dia são muito poucos os indivíduos que lêem ou conhecem as grandes obras literárias portuguesas. Pretende-se, assim, com este projecto, cultivar o gosto pela leitura nos mais jovens (uma vez que os gostos também podem ser ensinados).

 

Nesta primeira fase do projecto, a obra (que ainda está) em estudo é A Cidade e as Serras de Eça de Queirós. Pelos seus temas (ainda hoje) actuais e por ser um clássico da literatura portuguesa foi escolhida. O que se proporciona às crianças e jovens das Instituições são novas experiências com o objectivo estes adquirem formas próprias de ver, sentir e pensar.

           

As sessões de literatura têm, normalmente, a duração de uma hora e trinta minutos.

 

 Instituições onde estão implementadas as sessões de Literatura

 

Orfanato Princesa Dona Maria Amélia

 

No início do ano lectivo 2008/2009, saíram desta Instituição quatro jovens e entrou uma criança. Portanto, no total, estou a trabalhar com onze crianças e jovens com idades compreendidas entre os oito e os dezanove anos. Este grupo, composto unicamente por elementos do sexo feminino, é coeso e, normalmente, reage de maneira positiva às actividades propostas, revelando o seu interesse pelas mesmas.

 

Esta Instituição possui bons espaços. No entanto, a sala utilizada para as sessões de Literatura não é a mais indicada, pois as interrupções são constantes (a sala dá acesso a uma pequena despensa. Como a sessão decorre antes do almoço, a cozinheira utiliza frequentemente a sala para aceder aos alimentos reservados na despensa, o que acaba por quebrar o ritmo da sessão). A maior parte das vezes opto por sair da sala e utilizar os espaços no exterior da Instituição.

Na Instituição só existe um computador ao dispor das meninas, o que prejudica as actividades de pesquisa e quaisquer outras actividades que queira desenvolver utilizando este recurso.

           

No final do mês de Abril, chegou à Instituição a Irmã Maria Teresa, vinda do Brasil, cuja função seria residir com as crianças e jovens na casa e acompanhá-las permanentemente. Notei que houve alguma resistência por parte das meninas à Irmã e isso influenciou o ritmo das sessões de Literatura, pelo que, por vezes, optava por sair da Instituição pois a tensão entre as jovens e a Irmã é notória e desconfortável.

 

Lar Intergeracional da Santíssima Trindade da Tabua

 

No início do ano lectivo comecei as sessões de Literatura nesta Instituição com dois grupos, um composto por doze crianças e jovens (com idades compreendidas entre os seis e os dezanove anos) e outro com dez idosos. Devido a problemas de maturidade de algumas crianças, decidimos separar o grupo de doze crianças em dois grupos de seis elementos cada. Ora, como as crianças só conseguiam iniciar a sessão às 19 horas e 30 minutos e tinham que estar na cama às 9 horas, ficávamos com 1 hora e 30 minutos para três grupos (30 minutos para cada um deles, o que na verdade se traduzia em apenas 15 minutos de aula de Literatura propriamente dita). Em conversa com a nossa coordenadora pedagógica, Margarida Silva Reis, esta aconselhou-nos a, como os idosos não pertenciam ao grupo prioritário de intervenção, deixar o grupo entregue a outro responsável e, assim, dedicar todo o tempo que dispúnhamos às crianças e jovens do lar. Após conversa com a responsável do lar e com as crianças e idosos, a decisão foi aceite e colocada imediatamente em prática.

 

Quanto ao conjunto de crianças, estas apresentam personalidades e níveis de maturidade distintas umas entre as outras, o que acaba por prejudicar o bom funcionamento das sessões. Têm, também, lacunas a nível da leitura, da escrita e da compreensão de textos.

 

Esta Instituição é muito receptiva às nossas propostas. Infelizmente as sessões decorrem num horário pós-laboral, o que dificulta as saídas do Lar ou outras actividades que poderiam decorrer no exterior do edifício. Outra das lacunas existentes é a falta de computadores preparados para efectuarmos pesquisas e outro tipo de actividades, pois os existentes na Instituição são poucos e apresentam problemas de funcionamento.

 


Abrigo de Nossa Senhora da Conceição

 

Este grupo é composto por dez crianças e jovens com idades compreendidas entre os nove e os treze anos. Nesta Instituição, as sessões de Literatura iniciaram-se em Outubro de 2008. Grande parte dos educandos revela muito interesse pelas actividades propostas. O grupo é coeso e homogéneo.

 

A Instituição está sempre de braços abertos para nos receber e fornece-nos toda a ajuda que solicitamos.

 

Actividades Desenvolvidas

 

As actividades realizadas neste período são a continuidade do projecto de Literatura, iniciado em Março de 2008.

 

- Leitura e Interpretação de A Cidade e as Serras

            Esta actividade tem como objectivos o alargamento da compreensão de discursos em diferentes estilos literários e a criação de autonomia e de hábitos de leitura.

            Desde o princípio, esta foi uma actividade que cativou as crianças e jovens. Como estes não tinham hábitos de leitura, foi um factor de motivação a leitura com/para os colegas.

            Uma das estratégias utilizadas nesta actividade é a leitura em voz alta. No início, muitas das crianças e jovens sentiam vergonha ou gozavam uns dos outros quando liam em voz alta. Agora, isso já não se verifica já que ler para os outros faz parte da rotina das sessões de literatura. Para além de trabalhar a dicção, a leitura em voz alta pretende contribuir para uma melhor compreensão do texto em estudo.

            A saída para a exploração de outros espaços de leitura mostrou-se, também, eficaz na motivação dos alunos para a leitura. Os lugares preferidos são o telhado, o jardim e a praia.

Surgiram algumas dificuldades no momento da leitura da obra, nomeadamente a nível vocabular. Estas foram colmatadas com a análise atenta do contexto onde a palavra em questão se inseria. Desta forma, uma grande parte das crianças e jovens conseguia alcançar o sentido da frase ou palavra. Caso isso não se verificasse, os alunos procuravam ferramentas que os ajudassem na compreensão da palavra/frase desconhecida, normalmente o dicionário ou a Internet.

De maneira geral, as crianças e jovens que frequenta, as sessões de Literatura conseguem seguir o fio condutor da história e, até mesmo, contá-la por suas próprias palavras.

 

- Debate: Campo ou Cidade

            Os objectivos desta actividade foram o desenvolvimento da capacidade de argumentação e reflexão crítica do aluno.

            Nesta actividade, as crianças e jovens debateram sobre aspectos positivos e negativos de cada espaço. A tarefa mostrou-se um pouco problemática pois o assunto em debate não é significativo para alguns jovens. Pude, ainda, constatar que alguns alunos não têm qualquer vivência no campo.

 

- Debate: “O Homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado”

            Os objectivos desta actividade foram o desenvolvimento da capacidade de argumentação e reflexão do aluno.

            O primeiro passo dado foi a desmistificação desta frase, em conjunto. Cada criança referiu qual o sentido desta frase, para si. É de referir que “civilização” foi confundida com “boa educação/boas maneiras” mas, depois de alguma discussão, chegou-se ao verdadeiro sentido da expressão. Depois de ter sido perguntado Às crianças e jovens se concordavam com a afirmação, estes apresentaram algumas dificuldades na argumentação sobre o seu ponto de vista, pelo que este é um dos aspectos que têm de ser mais trabalhados durante as sessões.

            Posteriormente, coloquei a questão: “o que vos faz feliz?”. Os alunos não tiveram qualquer dificuldade em responder. A maior parte referiu aspectos ligados à família como sinónimo de felicidade.

 

Transcrição de debate sobre a frase (sessão no Orfanato Princesa D. Maria Amélia):

(…)

Prof.: Quem me quer explicar esta frase?

Ana: Então, o homem é feliz quando é superior aos outros, quando tem tudo.

Prof.: A ideia de felicidade está ligada a quê?

Ana: À civilização.

Prof.: E o que é civilização para Jacinto?

Ana: É poder e glória

Christine: São pequenas junções de todas as coisas.

Prof.: Aqui a civilização está ligada ao homem ter o domínio sobre a natureza.

Ana: ‘Tá aqui: “suma ciência x suma potência = a felicidade”

(…)

Christine: Era assim: Aristóteles era uma pessoa feliz porque era superiormente civilizado. Ele sabia, tinha o conhecimento das coisas. (referindo-se à passagem do livro que fala de Aristóteles e Terâmenes – pág. 10 e 11)

(…)

Vanessa: Ele acha que só é feliz quando é superiormente civilizado, quando é muito inteligente, muito culto, sabe isto, sabe aquilo, está sempre ”à frente dos outros”.

(…)

Prof.: Quem concorda com esta ideia?

Vanessa: Não concordo totalmente., porque ele nunca mais vai conseguir controlar a Natureza, mas também saber algumas coisas pode trazer alguma felicidade.

Prof.: Achas que serias mais feliz se vivesses rodeada de civilização?

Vanessa: Não… Cada um tem a sua ideia de felicidade. Os (habitantes) do campo também podem ser felizes.

Prof.: Quem quer partilhar uma ideia de felicidade?

Vanessa: É amor, saúde e dinheiro.

 

- Pesquisa/estudo sobre a vida de Eça de Queirós

            Esta actividade tem como objectivos conhecer Eça de Queirós, o escritor e o homem, bem como aspectos característicos da sua escrita/obra. Conhecer o património literário português é, também, uma das finalidades da actividade.

            A pesquisa foi realizada na Internet e, de maneira geral, as crianças e jovens entusiasmaram-se pela vida deste escritor. Em primeiro lugar, cativou-os as fotos que encontraram de Eça. Acharam piada ao seu bigode. Sobre a sua vida, acharam interessante que o autor tenha viajado por muitos países e o facto de ter escrito tantas obras. A maior parte dos alunos conheciam algumas, como Os Maias, O Crime do Padre Amaro ou Contos.

            Surgiu, por parte de um grupo de jovens do Orfanato Princesa Dona Maria Amélia o desejo de apresentarem trabalhos sobre a vida de Eça de Queirós. Algumas sugeriram fazer uma pequena dramatização sobre o escritor, outras, uma BD. Estes trabalhos ainda estão em fase de preparação para uma posterior apresentação.

 

- Quizz sobre a vida de Eça de Queirós

            Depois da pesquisa que efectuaram sobre o escritor, as crianças e jovens do Lar Intergeracional da Tabua foram convidadas a participar num jogo de perguntas e respostas sobre a vida de Eça de Queirós. Numa primeira fase, eu fazia as perguntas e os alunos respondiam. Depois, as crianças “tomaram conta” da actividade e faziam perguntas uma às outras. Notei muito entusiasmo nestes jovens, já que na Instituição têm um sistema de recompensas que os motiva para determinada tarefa. Neste caso, quem acumulasse mais pontos, vencia o jogo. Foi uma surpresa o interesse das crianças e jovens ao longo desta actividade.

            No Abrigo de Nossa Senhora da Conceição, após a pesquisa, as crianças e jovens foram convidadas a preencher um texto com lacunas sobre a vida de Eça de Queirós.

           

- Experimentação Plástica

            Esta actividade foi posta em prática no Lar Intergeracional da Tabua, com o intuito de trabalhar a transversalidade entre a área de Literatura e a de Expressão Plástica.

Esta tarefa foi baseada no destacável da Revista Noesis n.º 71, nomeadamente na proposta de actividade “Continua a desenrolar a linha deste carrinho com as cores e espessuras que mais te agradarem”, com o intuito de “encetar um diálogo com os objectos de uso quotidiano e reflectir sobre o que podemos fazer com eles, ao nível da sua dimensão estética”.

As crianças e jovens demonstraram, de o início, um grande entusiasmo. Mostraram, também, muitas dificuldades em se “libertarem”, pois a maior parte dos educandos acabou por fazer um desenho, sem se conseguirem desprender das coisas que usualmente fazem nas escolas.

Posteriormente, revelei algumas obras de Ruy Leitão, apresentando-as tal como estava sugerido no destacável Noesis: “para o estudo das obras de Ruy Leitão, dever-se-á começar com uma observação geral da obra, segundo quatro dimensões: intuitiva (as primeiras impressões), projectiva (o que nos faz pensar), vivencial (o que nos faz lembrar) e formal (as suas características: cor, forma, textura, ritmo, entre outras)”. É de referir que as obras de Ruy Leitão suscitaram muita curiosidade por parte das crianças pois acharam-nas invulgares.

 

- Saída para ver, sentir, cheirar e ouvir a cidade

            A cidade-alvo desta actividade foi o Funchal. As crianças e jovens foram convidadas a explorar a cidade. Chegaram à conclusão de que esta era rica em sons, cheiros, movimento. Posteriormente, a nossa cidade foi comparada com alguma descrições de Paris n’ A Cidade e as Serras.

            As actividades de saída da Instituição resultam, sempre, muito bem. Os jovens sentem-se mais libertos, motivados e abertos a novas perspectivas.

 

- Actividade complementar

Esta actividade foi desenvolvida no Lar Intergeracional da Tabua, com os objectivos de desenvolver a sociabilidade, o espírito de equipa (sentido de grupo, adquirir conceitos básicos de comportamento, cooperar com os outros em projectos e tarefas comuns, bem como promover as relações interpessoais (entre alunos e entre aluno – educador), promover o respeito mútuo entre alunos e alunos – professores, participar em actividades interpessoais e de grupo, respeitando normas, regras e critérios de actuação e de trabalho em vários contextos, manifestar sentido de responsabilidade, de flexibilidade e de respeito pelo seu trabalho e pelo dos outros, e comunicar, discutir e defender ideias próprias, dando espaço de intervenção aos seus parceiros.

O grupo de trabalho no Lar Intergeracional da Tabua é composto por 12 crianças e jovens com idades compreendidas entre os 7 e os 20 anos. É um grupo heterogéneo, tanto a nível de faixas etárias, como de maturidade e a nível comportamental.

Uma vez que, durante as sessões de Literatura e de Música, as crianças e jovens têm apresentado diversos problemas relativamente ao relacionamento entre eles, optámos por seguir outra estratégia de intervenção. Como sabemos que os educandos têm preferência por actividades desportivas, nomeadamente o futebol, decidimos pôr em prática esta actividade de modo a conseguirmos atingir os objectivos acima referidos.

Para o efeito, convidámos Edísio Cunha, que conta com a experiência de jogador e de treinador de futebol, e Vítor Cunha, actualmente jogador de futebol. Aceitaram, os dois, de bom grado o desafio e puseram mãos à obra.

O primeiro momento foi o de apresentação dos nossos voluntários às crianças e jovens. Desde o início notámos que estas tinham uma grande curiosidade em relação aos dois novos membros da equipa, questionando-os acerca da sua experiência no mundo do futebol. Depois de descrita a actividade que se seguia (um jogo de futebol), as crianças seguiram entusiasmadas para o campo onde iria decorrer a partida.

Depois de várias sessões, é de referir que a actividade e os voluntários foram, de imediato, bem aceites por todos os elementos do grupo (tanto pelas raparigas, como pelos rapazes). Desde o primeiro momento notámos uma grande evolução comportamental por parte das crianças. O espírito de grupo foi, também, fortalecido por esta actividade, como pudemos constatar em várias situações que ocorreram, como por exemplo, um dos alunos recusava-se, por completo, a passar a bola aos colegas de equipa, repreendendo-os frequentemente quando estes falhavam um passe. Agora, depois de várias sessões, o jovem apresenta um grande desenvolvimento, ao ponto de não se importar de desempenhar o papel de guarda-redes e de incentivar os seus colegas de equipa.

Outra das evoluções notadas foi a melhoria do relacionamento entre as crianças e jovens. Notámos que se incentivam uns aos outros e que não reagem violentamente (como antes acontecia) a algumas situações de conflito (durante o jogo).

Os grandes responsáveis por estes bons resultados são, sem dúvida, Edísio e Vítor, uma vez que o seu trabalho de campo não se limita, somente, a jogar futebol. Este desporto é apenas um meio para o desenvolvimento de várias competências (comportamentais, atitudinais, de sociabilidade) que são a grande lacuna apresentada por estas crianças. Temos, agora, a certeza de que esta foi uma boa estratégia a seguir e queremos aproveitar para agradecer aos nossos voluntários o seu empenho e dedicação a este projecto.

Continuaremos a apostar nestas sessões desenvolvidas por Edísio e Vítor Cunha, esperançados de que, com o fruto do seu trabalho, as nossas áreas de intervenção seja mais produtivas com este grupo.

 

Outras actividades que integram transversalmente o programa

 

- Visita ao Museu Etnográfico da Madeira

            Esta visita foi efectuada com o objectivo de os alunos conhecerem objectos etnográficos relacionados com os diferentes aspectos sociais, económicos e culturais do Arquipélago da Madeira.

            Apesar de esta ter sido a primeira abordagem realizada neste museu, as crianças e jovens demonstraram uma grande curiosidade em relação aos objectos expostos. Conseguiram, também, relacionar os objectos com as suas vivências. Por exemplo, uma aluna lembrava-se de já ter pisado uvas num lagar para fazer vinho, etc.

 

- Momentos...

Durante estes (quase) dois anos que temos vindo a desenvolver as áreas de Literatura e de Expressão Plástica, sentimos a necessidade de, para além dos objectivos trabalhados nas nossas sessões, proporcionar novas experiências às crianças e jovens com quem colaboramos.

Os nossos educandos apresentam algumas carências no que diz respeito à confiança em si próprios e nos outros que resulta em diversos desajustes pessoais e de sociabilidade. Têm uma grande necessidade de afectos, de contacto físico, de atenção, de um núcleo familiar e da referência masculina. Muitas vezes sentem medo de falar, de expressar uma opinião, de receber ou trocar um afecto e revelam uma baixa auto-estima.

Nós, educadores, somos o seu apoio, a sua referência extra-instituição. Para além de nós duas, contamos com o apoio de dois voluntários. 

Tendo em conta estas premissas, faz todo o sentido investir em actividades livres, uma vez que a formação em vários contextos são elementos essenciais destas iniciativas para a formação intrapessoal:

– Estabelecendo uma ligação directa com a própria consciência, dominando seus sentimentos com facilidade e tendo uma ideia clara das suas capacidades e dos seus limites. Assim, aprendem a usar as suas experiências, positivas ou negativas para se aperfeiçoarem. Em suma, conseguirem um equilíbrio emocional que as torne pessoas centradas, seguras e confiantes no seu EU.

E formação interpessoal:

 – Ajudando na aproximação e interacção com o outro, contribuindo, então, para uma aprendizagem e desenvolvimento de cidadãos conscientes, capazes de questionar o mundo que os rodeia.

Pretendemos através destas reuniões/acções onde os jovens podem falar, brincar, estar à vontade e libertar-se, aproveitar estes momentos para:

- Conseguir ajudar a resolver casos ou necessidades por eles; sentidas, criando espaços para o diálogo particular ou em grupo;

- Desenvolver o espírito de grupo/equipa;

- Transmitir-lhes afectos, o valor da amizade e dos sonhos;

- Desenvolver o sentido crítico e condutas sociais;

- Trabalhar o reconhecimento e a resolução dos seus erros;

- Desenvolver o respeito pelo outro, construindo a tolerância;

- Reconhecer os seus conflitos e medos, ultrapassando-os, ajudá-los a resolver dilemas;

- Desenvolver a sensibilidade;

- Aprender a exteriorizar os seus sentimentos e a facultar a desinibição;

Temos por objectivo incentivá-los a saber desfrutar dos seus tempos livres, apreciar e dar valor aos momentos da vida, proporcionando-lhes sempre, valências necessárias e construtoras para as suas experiências no seu percurso de vida e desenvolvimento da personalidade.

Todas as acções realizadas têm como base prioritária o Amor e o Afecto, sentimentos que são deficitários e muito sentidos nas vivências destas crianças e jovens.

Através de actividades livres - Alegres, sem Preconceitos, Descontraídas e Relaxantes, pretendemos fazer a “ponte” entre a aquisição de saberes e um momento de catarse.

 

Momentos...

Ao fim-de-semana

- Fins-de-semana passados em nossa casa

- Visita à Aldeia da Paz, com participação num treino de futebol e experimentação plástica.

- Experimentação fotográfica

- Jogos de Futebol

- Caminhadas no meio urbano

- Conversas e troca de confidências

- Lanche para apoio de casos problemáticos

- Visita e entrega de um presente a uma jovem interna, no Domingo de Páscoa

- Convívio/almoço entre Orfanato Princesa D. Maria Amélia e Abrigo de Nossa Senhora de Fátima na casa da Margarida

- Reflexão sobre o almoço/convívio

- Preparação de trabalho sobre o convívio

- Festa da Flor e Oferta de um Gelado – Abrigo Nª Sª de Fátima

 

Reflexão sobre as actividades livres

 

Estas pequenas, mas grandes actividades, contribuem, muitas vezes, para uma boa evolução da mentalidade das crianças e jovens que, ao estarem com outras crianças, abrem a sua mente para novos conhecimentos, novas experiências e novas amizades.

 

Estas actividades põem um sorriso numa criança e um brilho especial nos seus olhos.

 

As pessoas responsáveis pelas actividades não as organizam, somente, em função do projecto, mas sim pelo carinho que têm por nós e sentimos uma Grande Felicidade por termos alguém com um bom coração, sempre ao nosso lado, para o que der e vier.

 

As actividades que nós realizamos são especiais e inovadoras que nós, adolescentes, gostamos de explorar!

 

                                                        Ana Andrade (16 anos)

Orfanato Princesa D. Maria Amélia

Maio de 2009

                                                   

Feedback sobre as sessões de Literatura

 

- Transcrição das respostas das crianças/jovens face à pergunta: Menciona uma palavra que caracterize as sessões de Literatura.

 

FIXES

“fizemos as coisas de maneira divertida”

 

EXTRAORDINÁRIAS

“em vez de estarmos em casa, saíamos para ler o livro. Fomos ao Funchal, foi divertido”

 

ALTAMENTE

“convivíamos todos, não havia muitas discussões. Saímos, estávamos todos numa boa

 

ESTUPENDAS

“não é uma aula como as outras, é uma aula aberta, onde convivemos tanto a professora connosco, como nós com a professora”

 

DIVERTIDAS

brincámos muito e não passámos as aulas inteiras dentro de casa”

 

FANTÁSTICAS

“fizemos jogos, divertimo-nos muito”

 

EXTROVERTIDAS

“porque nos divertimos”

 

SOCIÁVEIS

“porque foram divertidas, passeámos, falámos uns com os outros sem discussões, trabalhámos em conjunto”

 

A Minha Experiência…

 

Ser um empreendedor é executar os sonhos, mesmo que haja riscos. É enfrentar os problemas, mesmo não tendo forças. É caminhar por lugares desconhecidos, mesmo sem bússola. É tomar atitudes que ninguém tomou. É ter consciência de que quem vence sem obstáculos triunfa sem glória. É não esperar uma herança, mas construir uma história...

Augusto Cury in Dez Leis para ser Feliz, 2003

 

Sempre gostei de livros e de tudo o que estivesse relacionado com eles. Talvez por isso me tenha entusiasmado o projecto de Literatura da CRIAMAR. A Dr.ª Elisa Marques, a nossa directora pedagógica tinha uma ideia, uma convicção: pôr crianças e jovens a ler os clássicos portugueses, com os objectivos de cultivar o gosto pela leitura e de valorizar a nossa cultura literária. Num primeiro momento, o que me passou pela cabeça foi: como ia pôr crianças de oito, nove ou dez anos a ler Eça de Queirós? Depois de a Dr.ª Elisa ter partilhado connosco a experiência de sucesso que já tinha realizado com crianças a ler Os Lusíadas, decidi afastar todos esses tabus da minha mente e pôr “mãos à obra”. Afinal, “não há impossíveis!”.

 

A obra de Eça escolhida para ser lida e estudada, primeiramente, pelas crianças e jovens foi A Cidade e as Serras. Tentei, então, estruturar um projecto que acompanhasse a leitura da mesma. Uma das minhas grandes preocupações na idealização do plano foi o facto de me lembrar que, até eu que gosto de ler, quando sou obrigada a fazê-lo, perco logo a vontade. Assim, a ideia era introduzir a leitura do livro de forma prazerosa, sem obrigações nem imposições.

 

A minha primeira grande batalha foi quando apresentei o livro às jovens. Estas, como já tinham estudado algumas obras de Eça de Queirós, nem queriam olhar para o livro. A percepção que tinham da escrita de Eça é que esta era muito descritiva, acabando por se tornar “chata”. Mas como poderiam estar a criar juízos de valor se não conheciam aquela obra? Depois de uma conversa de motivação sobre dar oportunidade às coisas que não conhecem, fizeram uma espécie de pacto comigo: iriam começar a ler a obra. Se esta não lhes interessasse, desistiam da leitura. Aceitei o acordo pois estava confiante que iria conseguir com que o livro as cativasse. E não me enganei! Só o facto de sairmos da Instituição para lermos, num espaço à sua escolha, bem como lermos em voz alta, em conjunto, a obra, fez com que as jovens, aos poucos e poucos, fossem criando gosto pela leitura. A linguagem de Eça de Queirós acabou, também, por se tornar num factor de motivação para a leitura. O desejo de alargar os seus conhecimentos a nível linguístico de forma a usá-lo noutras situações quotidianas tornou-se decisivo para o sucesso do projecto.

 

As crianças, como não faziam ideia de quem era Eça de Queirós, acabaram por tornar mais fácil a inserção da leitura de A Cidade e as Serras. Apesar de apresentarem mais lacunas a nível da leitura, da escrita e da compreensão de textos, mostraram-se motivadas, em parte pelas mesmas razões que as jovens, noutra, pelas actividades que realizávamos em paralelo com a leitura. Há dias fiquei felicíssima quando a Irmã Celeste, uma das responsáveis das Instituições, me veio dizer que via A Cidade e as Serras em várias mesas-de-cabeceira. Por vontade própria, as crianças e jovens começavam a ler a obra sozinhos, isto é, estavam já a aumentar a sua autonomia e a criar hábitos de leitura. O trabalho estava a dar frutos!

 

Senti, também, algumas dificuldades no decorrer destes meses em que abraço este projecto, nomeadamente devido aos problemas pessoais que as crianças e jovens que estão nas Instituições, normalmente, têm. O facto de apresentarem uma baixa auto-estima e de não se mostrarem confiantes de que conseguem realizar determinada actividade mostrou-se problemático. O trabalho de incentivar estes jovens e crianças é um trabalho contínuo no qual irei apostar até ao fim deste projecto.

 

Os melhores momentos que recordo destes dois anos de trabalho são aqueles passados com “as minhas meninas”. Durante este tempo acabámos por criar relações de amizade (genuína). Entre nós há confiança, segurança, honestidade, protecção… Há momentos de alegria, de confidências, de tristeza, de saudade… São estas experiências que me fazem sentir afortunada por ter embarcado nesta aventura que, no início, parecia difícil mas sem a qual não poderia, agora, viver feliz.